maio 12, 2010

A Pipoca Mais Doce

Porque é a verdade, porque me identifiquei com este texto...

«Há uns dois anos, quando estava a passar pelo maior desgosto de amor de todos os tempos, aquele que me estilhaçou o coração em dois milhões de pedaços, escrevi um texto em que dizia que não era feliz todos os dias. Não era e não fazia questão de o ser. Não tinha particular vontade de sair da cama, menos ainda de vir trabalhar, estar com pessoas, ensaiar conversas de circunstância quando tudo o que me apetecia era estar em silêncio. Não queria pôr cara alegre, porque alegre era tudo o que eu não me sentia. E havia quem levasse isso a peito, quem não estivesse habituado aos meus maus fígados, quem preferisse sempre a pessoa de resposta na língua e piada fácil. Pois. Não fui essa pessoa durante muito tempo e mesmo agora, olhando para trás, acho que alguma coisa se perdeu irremediavelmente. Ou isso ou fui eu que cresci e já não consigo olhar para a vida com o mesmo encantamento. A verdade é que continuo a não ser feliz todos os dias. E, quem disser que o é, só pode estar a querer camuflar qualquer coisa mais obscura. Casamentos, namoros, relações, seja lá de que género, dão trabalho. Sobretudo quando se acredita e se quer que as coisas funcionem. Quando nos estamos a lixar, aí todos os dias são felizes e despreocupados. Quando queremos saber, é lixado. Porque não deixa de haver a vontade de andar aos berros durante uma semana, não deixa de haver a vontade de enfiar a vida inteira nas malas, não deixa de haver a vontade de mandar tudo ao ar. Mas desistir, desistir mesmo, é coisa que custa. Porque por mais berros que se dêem, por maior que seja a vontade de voltar costas e deixar o outro a papaguear sozinho, quando se gosta respira-se fundo. Conta-se até 320. Faz-se um esforço de memória para relembrar só que é bom. E, sobretudo, sabe-se que o dia seguinte será sempre melhor, mesmo que à noite haja palavras tortas e costas voltadas. Sou feliz muitas vezes, quase sempre, mas não sou feliz todos os dias. E sim, às vezes é tamanha a embirração, tamanha a ira, tamanha a falta de paciência para o que não é bom, que dá mesmo vontade de atirar pratos ao chão e gritar "FARTEI-ME!". Nunca parti pratos, já me fartei algumas vezes. Mas nunca as suficientes para bater com a porta de vez. Fica só ali ligeiramente encostada até que um tenha a presença de espírito suficiente para a abir outra vez. Não sou sempre eu, é verdade, mas às vezes sou. Se não forem dois a ceder, de forma alternada ou ao mesmo tempo, a relação tem os dias contados. Sou magnânime nas discussões (estúpida, é a palavra), mas sou mais ainda na forma como as relevo. Como as procuro esquecer a bem da alegria geral. E nem sempre falar sobre tudo é o melhor. Dissecar cada pormenor, cada palavra, às vezes só contribui para o prolongamento da coisa, para mais um round de frases tortas, daquelas que saem da boca sem filtragem. Tantas e tantas vezes já dei por mim a dizer coisas fortes, a saber que estava a esticar a corda até aos limites do impossível. Da outra parte faz-se o mesmo, sem dó nem piedade, que nisto das palavras inconsequentes, daquelas que chegam a cem à hora, em formato seta, não sou só eu que tenho mérito. Quase sempre prefiro um abraço a uma conversa. Os efeitos tendem a ser mais imediatos e apaziguadores.


As relações não são fáceis, ser feliz todos os dias também não. É um investimento, uma aposta constante, um esforço. Sim, sim, sim, um esforço, digam lá o que disserem. Para que tudo corra pelo melhor, para que a felicidade impere a maior parte do tempo, para que se engulam alguns sapos, para que se aceitem algumas injustiças, para ouvir coisas boas e outras que nos partem ao meio de tão más e tão ingratas. Quando não há esforço há conformismo, e esse é o primeiro passo para o fim, para os muitos e muitos dias (meses, anos) de infelicidade total. Não faço ideia se me vai apetecer esforçar para sempre (nem acredito que alguém saiba) e já cá ando há tempo suficiente para saber que o "para sempre" é, tantas vezes, um "até que dê". E, sinceramente, mais vale um "até que dê" em pleno do que um "para sempre" miserável. Dizer que tudo são rosas é que é uma grande mentira. E vocês sabem que sim.»

In A Pipoca Mais Doce

Sem comentários: