agosto 05, 2005

CírCuLO do AMOR

Certa manhã, um camponês bateu com força à porta de um convento. Quando o irmão porteiro abriu, ele estendeu-lhe um magnífico cacho de uvas.
- Caro irmão porteiro, estas são as mais belas produzidas pelo meu vinhedo. E venho aqui para as dar de presente.
- Obrigado! Vou levá-las imediatamente ao abade, que ficará feliz com esta oferta.
- Não, trouxe-as para si.
- Para mim? Eu não mereço tão belo presente da natureza.
- Sempre que bati à porta, você abriu. Quando precisei de ajuda porque a colheita foi destruída pela seca, você deu-me um pedaço de pão e um copo de vinho todos os dias. Eu quero que este cacho de uvas lhe traga um pouco do amor do sol, da beleza da chuva e do milagre de Deus.

O irmão porteiro colocou o cacho diante de si e passou a manhã inteira a admirá-lo: era realmente lindo. Por causa disso, resolveu entregar o presente ao abade, que sempre o tinha estimulado com palavras de sabedoria.
O abade ficou muito contente com as uvas, mas lembou-se de que havia no convento um irmão que estava doente, e pensou: «Vou dar-lhe o cacho. Quem sabe pode trazer alguma alegria à sua vida.»
Mas as uvas não ficaram muito tempo no quarto do irmão doente, porque este reflectiu: «O irmão cozinheiro tem cuidado de mim, alimentando-me com o que há de melhor. Tenho a certeza de que isto lhe trará muita felicidade».
Quando o irmão cozinheiro apareceu à hora de almoço, trazendo a sua refeição, ele entregou-lhe as uvas.
- São para si. Como está sempre em contacto com os produtos que a natureza nos oferece, saberá o que fazer com esta obra de Deus.
O irmão cozinheiro ficou deslumbrado com a beleza do cacho e fez com que o seu ajudante reparasse na perfeição das uvas; tão perfeitas que ninguém melhor para as apreciar do que o irmão sacristão, responsável pela guarda do Santíssimo Sacramento, e que muitos no mosteiro viam como um homem santo.
O irmão sacristão, por sua vez, deu as uvas ao noviço mais jovem, de modo a que este pudesse entender que a obra de Deus está nos mais pequenos pormenores da Criação. Quando o noviço o recebeu, o seu coração encheu-se de glória do Senhor, porque nunca tinha visto um cacho tão magnífico. Nessa altura lembrou-se da primeira vez que chegara ao mosteiro e da pessoa que lhe tinha aberto a porta; fora esse gesto que lhe permitira estar hoje naquela comunidade de pessoas que sabiam valorizar os milagres.
Assim, pouco antes do cair da noite, ele levou o cacho de uvas ao irmão porteiro.
- Coma e aproveite, porque você passa a maior parte do tempo aqui sozinho e esta uvas irão fazer-lhe muito bem.
O irmão porteiro percebeu que aquele presente lhe tinha sido realmente destinado, saboreou cada uma das uvas daquele cacho e adormeceu feliz. Desta maneira, o círculo foi fechjado; um círculo de felicidade e alegria, que se estende sempre em torno de quem está em contacto com a Energia do Amor.

In Zahir, Paulo Coelho

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