julho 03, 2005

CaMinHanDo aTÉ ti...


Tudo está mergulhado num silêncio profundo e o tempo parece ter parado. Apenas o meu espectro teima em vaguear pelas ruas desertas, impelido por uma qualquer força interior. Continuo a caminhar, horas a fio, sem destino traçado e o aglomerado de casas começa a ser um cenário longínquo, até ao momento em que olho para trás e me apercebo que já tinha sido arrancado do meu horizonte. Contudo, isso não perece importar-me, contínuo a minha caminhada, sempre com os olhos postos na estrada, sem prestar atenção ao que me rodeia. Paro apenas o tempo suficiente para descansar, trincar qualquer coisa e recuperar forças para continuar. Nem eu próprio sei até onde irei ou até onde quero ir…sei apenas que vou!

Caminhando...
Passo por inúmeras cidades, todas diferentes, mas todas iguais. Todas elas tinham algo em comum: a indiferença com que os seus habitantes conseguiam viver, ou, sobreviver! O movimento e o barulho constante dos carros com os seus motoristas impacientes, a correria das pessoas de um lado para outro, sem sequer virarem os olhos por instantes, para perceber o que se passa mesmo à sua volta. Parecem alheadas da realidade e apáticas perante qualquer acção que não se encaixe na sua rotina diária, como se tivessem adormecidas e fossem máquinas programadas com uma ordem fixa de movimentos. Quero afastar-me desta realidade, ela não me pertence…
Caminhando…
Vislumbro uma cadeia de montanhas a sul e fico impressionado com a sua grandiosidade. Vou subindo, andando por terrenos cada vez mais inclinados, começo a cansar-me rapidamente, mas ainda que pare para recuperar energia, não posso desistir. O vento sopra cada vez com mais força, começo a ficar gelado e apercebo-me que vou em direcção a uma tempestade. Os relâmpagos são a luz e os trovões a banda sonora da minha caminhada, as pingas começam a cair e fico completamente molhado. Mas nem mesmo assim desisto...Depois de muito caminhar, a tempestade parece acalmar e começam a rasgar os primeiros raios de Sol que passado pouco tempo já me encadeam.
Caminhando…
Avisto o deserto, um horizonte plano, um gigantesco espaço vazio, o vento calmo, e nada, absolutamente nada à minha volta. Como se o mundo tivesse escolhido aquele lugar para mostrar a sua imensidão e simplicidade. Olhei para o céu azul e deixei-me inundar por aquela luz, por aquela sensação de que estava em lugar nenhum e em todos os lugares do mundo ao mesmo tempo. Mas esta agradável sensação durou breves minutos, porque logo o calor começou a apertar, não havia água para beber e à minha volta apenas o nada que era tudo. Mas era preciso continuar. Para onde? Não fazia a menor ideia, mas também não estava preocupado com isso. Nem as tempestades de areia me fizeram parar, nada, absolutamente nada.
Caminhando…
Começo a ficar rodeado de verde, um lugar cheio de vida, um hino à Natureza, onde plantas, árvores, flores e animais convivem pacificamente, dando uma lição de vida a quem quiser aprende-la. A magia deste lugar contagia-me, vivo momentos únicos: brinco e corro com os animais, falo com as flores, danço com as borboletas, canto com os passarinhos e alimento-me com os frutos que as árvores gentilmente me oferecem…mas em breve percebo que este também não é o meu lugar, que sou um intruso apesar de bem-vindo. E por isso despeço-me com um enorme abraço de saudade a este lugar encantado e continuo a minha peregrinação pelos trilhos da minha vida…
Caminhando…
Avisto algo que me intriga, apesar de ver dunas de areia que se assemelham ao deserto, vejo que estão cercadas por uma imensidão infinita de azul, que se confunde com o céu. Assim que os meus pés sentem o calor dos grãos de areia, deixo-me cair e fico ali deitado, deslumbrado, a contemplar o céu feito de água que vai e vem até mim. Mas o cansaço é muito, foram muitos e muitos anos a caminhar e por isso acaba por adormecer, ali mesmo às portas do sonho… Despertei com os primeiros raios solares do dia, ergui-me e continuei a caminhar em direcção ao mar, flutuando por cima da água até chegar à ilha em que esperavas por mim, desde o primeiro momento das nossas vidas.
Imagem de: Yann Arthus-Bertrand, Nigéria

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