julho 09, 2005

o OuTrO


“Um sujeito encontra um velho amigo seu, o qual vive constantemente a tentar acertar na vida – sem resultado. «Vou ter que lhe dar alguma dinheiro», pensa. Acontece que, naquela noite, descobre que o seu velho amigo está iço e veio pagar todas as dívidas que tinha contraído no decorrer dos anos.
Vão até um bar que costumavam frequentar juntos, e ele paga a bebida a todos. Quando lhe indagam a razão de tanto êxito, responde que até há dias atrás, estava a viver o Outro.
- O que é o outro? – perguntam todos.
- O outro é aquele que me ensinaram a ser, mas que não sou eu. O Outro acredita que a obrigação do Homem é a passar a vida inteira a pensar como juntar dinheiro para não morrer de fome quando ficar velho. Tanto pensa, e tanto faz planos, que só descobre que está vivo quando os seus dias na Terra estão quase a acabar. Mas aí é tarde demais.
- E você quem é?
- Eu sou o que qualquer um de nós é, se ouvir o seu coração. Uma pessoa que se deslumbra diante do mistério da vida, que está aberta para os milagres, que sente com alegria e entusiasmo aquilo que faz. Só que o Outro, com medo de se decepcionar, não o deixava agir.
- Mas existe sofrimento – dizem as pessoas no bar.
- Existem derrotas. Mas ninguém escapa delas. Por isso, é melhor perder alguns combates na luta pelos seus sonhos, que se derrotado sem sequer saber por que está lutando.
- Só isso? – perguntam as pessoas no bar
- Sim. Quando descobri isto, acordei decidido a ser o que realmente desejei. O Outro ficou ali, no meu quarto, a olhar para mim, mas não o deixei mais entrar – embora tenha procurado assustar-me algumas vezes, alertando-me para os riscos de não pensar o futuro.”

Paulo Coelho, Na Margem do Rio Piedra eu Sentei e Chorei


Imagem: Escher

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