outubro 04, 2010

Rituais

Não sei onde estás, não sei se acredite que realmente nos acompanhas como eu gostava de crer. Às olho à minha volta e pergunto-me "Onde será que ele está?". Não detecto nada, nem o minímo sinal que me levasse a pensar que estarias por perto. Por vezes penso que só não nos avisas da tua presença porque não nos queres assustar, sabes que a dor que carregamos connosco já é grande o suficiente. Mas não te posso negar, seria reconfortante sentir-te. Isto para te dizer que em mais um ritual que fizemos procurei por ti. Foi ontem a missa, numa Igreja onde estiveste poucas vezes, mas por que é lá que nos sentimos melhor, espero que gostes da escolha. Procurei-te na Igreja e sempre que te procuro coloco em prática o reflexo pavloviano ao olhar para cima, para o ceú ou, naquele caso, para o tecto. Eu sei que é estupidez minha pensar que se estiveres ali, essa será a melhor forma de interagir contigo. Se tiveres mesmo presente sei que poderás não estar propriamente no ar e que podes mesmo estar sentado ao meu lado a abraçar-me, mas o que é que queres?! Todos sofremos destes condicionamentos que a sociedade implicitamente nos transmite.
Ontem portei-me mal, eu sei. É inexplicável, mas há momentos em que não me consigo controlar, por mais que tente. Talvez seja por que a elevação espiritual esteja mais próxima da energia em que eu acredito que te tornaste. Senti-me completamente desamparada ontem. Ouvia o Padre a dissertar acerca da conjuntura económica e política e das boas práticas para a ultrapassar, e não conseguia, de facto, encontrar uma ligação possível entre as duas evidências. É por tudo isto que não encontro mais valias naquele ritual, não da forma como ele é pronizado actualmente pela Igreja Católica. Sei que apesar da educação católica que recebeste, eras céptico na tua crença acerca do mundo, talvez impulsionado pelo teu espírito pragmático e racional. Sei também que apesar disso, nunca deixaste de praticar o bem, talvez até de forma mais ferverosa que muitos católicos praticantes, e sei que nunca renunciaste à religião e aos rituais que ela prevê. De alguma forma, a minha filosofia de pensamento é semelhante à tua, muito menos céptica, mas igualmente crítica. Mais do que assinalar datas da tua partida (missa do 3º mês), faz-me sentido criar um tempo e um espaço que nos permita recordar-te. Renunindo família, amigos e colegas sentimos mais que estás presente. Não consigo explicar racionalmente esta ideia, penso ter a ver com o facto de seres tu o denominador comum aos laços entre todas aquelas pessoas. Contudo, não entendo por que motivo a missa é colectiva (assistimos no início do ritual a uma leitura de diversos nomes, nos qual apenas identificamos o teu) e se limita a fazer cumprir as exigências da liturgia. Eu quero rezar por ti, para ser sincera queria mesmo rezar para que voltassesl, mas na impossibilidade de concretizar tal desejo, rezo para que a tua alma tenha o merecido descanso, para que não fiques aprisionado aos teus deveres terrenos. Mas quero acima de tudo rezar por ti num momento que te deseja exclusivamente dedicado, em que se fale de amor, de vida e de alegria, e, consequentemente, de perda, de dor e saudade. Perdi o meu pai, não estou ainda com disponibilidade mental para um sermão acerca do estado da nação ou até mesmo sobre a levitação da pedra. O nosso luto ainda está numa fase inicial, por um lado parece que passou uma eternidade imensa que nos faz sofrer horrores, por outro, parece que passaram apenas 3 dias e que ainda não absorvemos a realidade como ela é. Não temos 'pachorra' (perdoem-me a expressão) para isto! Não que a culpa seja do Padre, entenda-se. A 'culpa' a existir, está na forma como os rituais litúrgicos são entendidos actualmente, permeáveis mais a uma óptica de negócio do que propriamente na vertente espiritual; e está na cultura partilhada e na forma como encaramos o sofrimento dos outros. Não há aqui culpados e inocentes, todos nós assumimos ambos os papéis, assim nos seja dada a oportunidade.
Sabemos que nenhum dos rituais que cumprimos nos devolverá a paz perdida e, sobretudo, o que representavas para nós. Nada de pode trazer de volta, é um facto demasiado cruel que por vezes, e de forma inconsciente tentamos recusar. Na verdade os rituais cumprem um objectivo de paz interior, têm muito mais a ver com subterfúgios que procuramos para escoar toda a energia negativa que nos foi depositada e subtituí-la pela energia que, de alguma forma, nos continuas a transmitir. De cada vez que vamos ao cemitério levamos flores naturais, preferencialmente brancas porque é essa a cor que nos transmite mais calma, e arranjamo-la o melhor possível para que fiques também tu com um pouco de nós. É triste passar lá depois e verificar que o sol já secou as flores que com tanto carinho depositámos na tua moradia ou ver o que o vento foi tanto que derrubou e partiu a jarra que comprámos. Sossega-nos apenas a certeza de que o ritual foi cumprido, fomos lá, de coração aberto até ti. As missas são igualmente rituais. Já percebeste que não têm a essência que eu gostaria de lhes dar. Penso que em parte consegui na anterior dar alma àquele momento, mas nesta não me foi possível. Prometo-te que vou continuar a batalhar por isso e por fazer até uma cerimónia como mereces, mas tu sabes como estamos limitados. Mais importante do que isso, são os rituais a que individualmente damos lugar, por vezes coisas minímicas como parar em frente à tua fotografia e deixar cair a lágrima que está presa, falar contigo de forma espontânea, ver as tuas fotografias. Tudo isso são os nossos pequenos rituais diários que nos permitem conviver de forma saudável com a dor. Quero acreditar que és o principal testemunho deles e tu sabes como muitos deles são só nossos, porque sofrer à frente de alguém é uma experiência dolorosa. Na verdade, sofro todos os dias com a mesma intensidade, só não o demonstro na maioria das vezes, prefiro guardar para mim. É facilmente perceptível quando alguém está efectivamente solidário connosco e só nesses momentos vale a pena quebrar! Na maior parte do tempo, não encontramos essa solidariedade e continuamos a abafar a nossa dor...

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