outubro 04, 2010

Solidão

Vejo-me completamente sozinha em muitos momentos. Não falo no sentido físico do termo, talvez seja mais correcto dizer que me sinto emocionalmente só. Algumas pessoas estão por perto, demonstram alguma atenção regular, tentam imaginar o sofrimento pelo qual estamos a passar, esforçam-se pelo menos.
Contudo, a maioria das pessoas não demonstra qualquer disponibilidade perante o sofrimento do outro. Atenção, não estou a condernar ninguém, nem quero que assim seja entendido, eu própria talvez o tenha feito tantas vezes, faz parte da condição humana. Afastamo-nos do sofrimento alheio até ele nos atingir sem possibilidade de fuga, talvez seja até inconsciente a ideia de é contagiante e, como ninguém gosta de sofrer, tendemos a 'fugir' dessa realidade, se não convivermos com ela, não seremos contagiados. Esse dogma dar lugar a atitudes de completa indiferença e desvalorização do sofrimento do outro, personificadas através de comportamentos observáveis e facilmente identificáveis. No outro dia, numa incursão pelo mundo real, decidimos ir às compras, afinal as coisas não chegam voluntariamente até nós. Ao vaguear pela loja à procura de alguma coisa do nosso interesse, cruzamo-nos com uma antiga vizinha, com quem a minha mãe mantinha uma convivência regular ainda que pouco aprofundada. Qualquer das maneiras, conheciam-se e a pessoa sabia exactamente o que se tinha passado. O minímo que se poderia esperar era um cumprimento, já nem digo uma palavra de força ou solidariedade, sabemos que as pessoas têm formas de reagir bastante diferentes e nem sequer sabem se para nós é fácil abordar esse assunto. Felizmente que apesar de ter sido um choque violento e cruel, conseguimos manter o que nos liga a ti e falamos abertamente de ti, das nossas recordações e de tudo o que de bom nos deixaste. Em vez disso, foi muito mais fácil para a aquela pessoa baixar a cara, passar para um lado mais afastado daquele onde nos encontravamos e simplesmente não dizer nada. O silêncio permitiu-lhe afastar o sofrimento que está espelhado nos nossos rostos. Estamos a sofrer é verdade, não conseguimos esconder isso, também é verdade e não temos que pedir desculpa por isso, mas nada disso nos tornou anti-sociais, ao ponto de deixarmos de falar às pessoas que conhecemos em maior ou menor grau. Nesse mesmo dia também, a minha mãe comentava comigo que tinha ido a uma pastelaria beber café e comprar o nosso pequeno-almoço, quando encontrou uma conhecida que, não obstante a tragédia em que a nossa vida se tornou ter sido torna pública de todas as formas e de essa pessoa ter até relações através das quais sabia do sucedido, lhe perguntou porque é que ela andava vestida de preto. Perante a cara que a minha mãe deve ter feito, a senhora disse "não ligue, tinha-me esquecido!". Nem questiono a possibilidade de esquecimento que para mim até pode ser real, tendemos a fazer delete na informação que não nos pertence, mas condeno veemente aquele comentário completamente desprepositado. Isto falando das pessoas que tiveram o 'azar' de se cruzar connosco, porque poderia dar milhentos exemplos de indiferença e desvalorização. Pessoas que se limitaram a estar presentes no funeral ou naqueles dias mais difíceis e que simplesmente desapareceram do mapa, afinal está morto e enterrado, fim de história. Como se fosse possível algum dia terminar uma história desta natureza. O choque foi brutal para todos e por isso foi fácil ter a casa desmesuradamente cheia naquela altura. Infelizmente nunca iremos ultrapassar verdadeiramente esta perda, por isso para aqueles que estiveram presentes, é difícil manter a amizade, a solidariedade e presença. Só posso pensar que essas pessoas acreditam que a nossa dor já se transformou, que foi restrita aquele universo temporal tão abragente pela quantidade de dias de espera que tivemos pela frente. Acredito que em alguns casos seja a tentativa de não incomodar, de nos dar maior privacidade ou até mesmo de não reviver todo o drama daqueles dias. A verdade é que não percebem que de alguma forma o seu conforto nos pode ajudar a encontrar força para viver um dia de cada vez. Depois também há outras pessoas que não têm a sensibilidade de perceber que na fase de luto em que nos encontramos ainda não temos a disponibilidade mental e física para grandes incursões em momentos de humor. Nós até nos rimos, felizmente que não perdemos a capacidade de rir, mas muitas vezes rimos na esperança de que a nossa mente se deixe contagiar, a grande maioria das vezes, senão todas, é mesmo um sorriso triste, mas sempre ouvi dizer do que mais triste do que um sorriso triste, é a tristeza de não saber sorrir. Então continuo a sorrir e a rir, embora as pessoas não entendam que não tenho vontade de me rir, que naquele momento não me é permitido vislumbrar a piada naquilo que elas estão a dizer. O defeito é meu, eu sei-o, mas a falta de sensibilidade é delas e isso magoa-nos, por uma qualquer intenção implícita de desvalorizar o que podemos estar a sentir.
Felizmente também tenho bons exemplos, de amizades que ganhámos ou fortalecemos com este infortúnio e essas para mim são inquestionáveis. Agradeço de coração todo o apoio que nos foi e tem sido dado, sem cada um desses gestos seria muito mais penoso para cada um de nós. Só me tem sido possível 'descansar' porque essas pessoas existem e estão a ter um papel fundamental na vivência da minha mãe. Não tenho forma de compensá-las a não ser com a amizade e nobres sentimentos que nutro por cada uma delas.
No entanto, sinto-me sozinha. Não sei se é um sentimento cultivado e alimentado por mim, talvez o seja, desde há algum tempo o que implica que só agora esteja a sentir a magnitude das suas repercursões. Ou não sei se é fruto da sociedade em que vivo (e da qual não me excluo), egocêntrica e narcisita que não tem tempo para dispender com acções de solidariedade social, mesmo que no âmbito das nossas relações mais próximas e mesmo que isso alimente a nossa rede social. Sentir-me sozinha num momento como estes é o pior sentimento que podemos acumular a este grau de sofrimento. Precisava de um suporte que muitas vezes não se limitasse às palavras de circunstância, mas que me segurasse sempre que eu não tivesse forças para caminhar...

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